Espiritualidade litúrgica
Por: Maucyr Gibin
O evangelista João, ao apresentar o chamado dos primeiros discípulos, traz um diálogo desconcertante: Jesus - “O que estais procurando?”.
Eles - “Rabi, onde moras?”. Jesus
- “Venham ver... Foram ver e permaneceram com ele”. O episódio foi tomado tão a sério que o evangelista anota com precisão: “Era por volta das quatro da tarde.” Aqueles que o procuravam e o Mestre, estabeleceram um convívio intenso naquele memorável encontro. Confiado na sinceridade dos interlocutores, Jesus toma a liberdade de trocar o nome de um deles. “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas – Pedra” (1,38-42). Chegou pescador profissional, saiu discípulo-missionário. A história continuou: a amizade foi crescendo e a mútua fidelidade, comprovada, faz com que o Mestre entregue a seus convocados, de então, o futuro de seu grande projeto: instaurar o Reino novo, recém inaugurado pelo Mestre. “Nós encontramos o Messias!”.
A Espiritualidade litúrgica subjaz em toda a história da Igreja. Basta recordar as célebres catequeses mistagógicas dos Pais da Igreja que, inspirados na sólida iniciação e nos sacramentos recém celebrados, se propunham introduzir os neo-cristãos na contemplação das riquezas da vida em comunidade e na sabedoria espiritual.
Sem delongas, citemos alguns destes mestres da fé e da celebração dos Mistérios: Ambrósio, Cirilo de Alexandria, Agostinho, João Crisóstomo, Teodoro de Mopsuesto. As homilias de Leão Magno e Gregório Magno apontavam no sentido de dar solidez à espiritualidade cristã com fundamentos hauridos nas fontes da liturgia, consciente, de seu significado e eficácia.
Circunstâncias da história fizeram com que, sobretudo na Idade Média, a liturgia tenha ficado opaca de significação para muitas assembleias; e assim formas de piedade alheias à sua inspiração primeva prevaleceram. O movimento de retorno às fontes bíblico-teológico-litúrgicas, iniciado no século XIX e oficializado no Concílio Vaticano II, tentou – e continua tentando - dar à celebração do Mistério pascal o lugar que lhe pertence na vida das comunidades.
Para que a espiritualidade aflore na vida dos cristãos é necessário acolher o dom do Pai que Jesus promete. “A glória de meu Pai se manifesta quando vocês dão muitos frutos e se tornam meus discípulos” (Jo 15,8). Como batizados será que estamos dispostos a permanecer com aquele Jesus que nos foi dado como Salvador,
Redentor, Messias restaurador do Universo... Obediente até a morte na Cruz? “O que estais procurando”? Comparemos um pouco: Os primeiros chamados decidem, num repente, permanecer com Jesus e segui-lo mesmo quando escandalizados com certas atitudes do Mestre. Haviam aderido à pessoa do Mestre como ele ia se revelando a eles em todas as circunstâncias.
As bases para essa ‘permanência’ são explicitadas no prolongado desabafo/ instrução/roteiro de vida pascal expostos, em forma de colóquio, em João (cap.16-17-18): Jesus reafirma sua obediência inabalável ao Pai; afirma categórico que esta glória se manifesta quando ‘vocês dão muitos frutos e se tornam meus discípulos’.
Permanecer em Jesus é obedecer a vontade do Pai e solidificar-se no convívio e na comunhão com os irmãos.
Eis questões prévias a serem assumidas: que Jesus nossas celebrações estão apresentando? Que Jesus está sendo procurado? Jesus ‘moderno’ ao sabor da mídia e de pára-brisas ou camisetas? Jesus ‘light’ ou ‘show’ para aglomerados que se dispersam após o espetáculo? Os mesmos dilemas e ambigüidades surgiram com uso do denominativo ‘Messias’ quando Jesus aparecia em público. E como custou para o próprio Jesus desfazer a confusão entre o ‘messias’ desejado e o Messias Prometido, o enviado do Pai e cuja realização supõe disponibilidade e entrega: “Eis, Pai, que venho para cumprir Tua Vontade”. Uma autêntica espiritualidade litúrgica começa pelo ir ver onde mora o verdadeiro Jesus, frequentá-lo e acompanhá-lo em suas caminhadas. Seguir Jesus é ir alegre para onde quer que nos conduza!
Podemos ir a seu encontro pelas ruas, vielas, nas rodas de amigos, juntos aos enfermos, pobres e a família mais próxima.... Mas será que O reconhecemos?
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