O que vem após a Morte?
A Arte de Viver e de Morrer. 

Por: Alexandro Cardoso

Desde sempre refletimos a respeito da morte e da vida eterna.   O que nós cristãos devemos esperar encontrar após a morte e como podemos supor que seja a vida eterna?  O que nos caberá no fim?
As ideias que fazemos da morte e do que nos está reservado a partir dela determinam nosso modo de lidar com o assunto ao logo da vida. Essas ideias ou nos causam medo ou nos dão confiança e segurança. Integrar a morte à nossa vida nos ajuda a viver de forma mais consciente, livre e atenta, pois somente quando aceitamos esse fato como objetivo, e não como extinção da vida, nos convencemos de nossa existência mortal e dignificamos nossa condição de seres humanos destinados a ressurreição.

C.G Jung discutiu a questão da vida após a morte em seu artigo intitulado A alma e a morte. Nele Jung relata sua experiência de que, muitas vezes, as pessoas que, na juventude, temiam a vida, são as mesmas que, na velhice, têm medo de morrer. Elas temem as exigências da vida.

 Lutar e desenvolver um ego forte faz parte da primeira metade da vida. Em contrapartida, o papel da segunda metade da vida é se desapegar do ego e se confrontar com a questão da morte, à medida que vamos reconhecendo a necessidade de espiritualidade, de Deus.
Contudo muitos se apegam demasiadamente à vida. Jung Diz:

É por isto que muitas pessoas se petrificam na idade madura, olham para trás e           se agarram ao passado, com um medo secreto da morte, no coração. Subtraem-se ao  processo vital, pelo menos psicologicamente, e, por isso ficam paradas, como colunas nostálgicas, com recordações muito vividas do seu tempo de juventude, mas sem nenhuma relação vital com o presente. (JUNG, 1967:466)

Assim Jung encorajou as pessoas a fazerem as pazes com a ideia de sua própria morte. Ele não fala sobre como imagina a vida pós-morte, apenas uma única vez ele falou com respeito ao fato de que a morte seria como um casamento, um mysteriumconjunctionis (mistério da união). “A alma, pode-se dizer, alcança a metade que lhe falta; atinge a totalidade”.
O pensar sobre aquilo que nos aguarda na morte tem consequências sobre a nossa forma de lidar com o que é material e passageiro. Nós não mais nos apegaríamos aos bens, ao sucesso, mas sim nos abriríamos para o que é essencial.

Quanto mais o homem acentua uma falsa posse, menos pode sentir o essencial e tanto mais insatisfatória lhe parecerá a vida. Sente-se limitado porque suas intenções são cercadas e disso resulta inveja e ciúme. Se compreendermos e sentirmos que já nesta vida estamos relacionados com o infinito, os desejos e atitudes se modificam. Finalmente só valemos pelo essencial e, se não acedemos a ele, a vida foi desperdiçada.

Ainda que eu não seja partidário de todas as ideias de Jung no que se refere à morte e a vida eterna, seus pensamentos me mostram, de fato, que no fundo de nossa alma, há uma presciência de vida eterna.  A alma sabe no fundo de si que tudo não se acaba com a morte e que ainda há uma outra forma de vida não vinculada as categorias de tempo e espaço. Ela pressente que existe algo parecido com “eternidade” entre Deus e o homem, entre as pessoas.

Preparando uma Morada

Em seu sermão de despedida, Jesus nos descreve, de forma prodigiosa, o que nos aguarda na morte, Jesus sabe que morrerá na cruz. E a crueldade desse morrer, que lhe é aplicada pelo meio exterior, ele dá a entender que seja sua própria ação, como um caminhar para o Pai. Tendo Ele, em sua fé, já superado a morte, quer, antes de morrer, também conferir confiança e coragem aos discípulos:

 “Não se perturbe vosso coração. Crede em Deus, crede também em mim. Na casa do meu Pai há muitas moradas, Não fosse assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo para que, onde estou, também vós estejais”. (Jo 14,1-3)

A superação da morte é uma promessa para aqueles que seguem a Jesus Cristo. Em sua morte, Jesus nos prepara a morada que podemos ocupar quando morrermos. Na morte, não findaremos em algo desconhecido ou sombrio, mas em algo íntimo, conhecido, que nos é familiar. Foi o próprio Jesus que foi antes de nós e nos preparou a morada onde podemos viver eternamente.

A interpretação que Jesus dá à sua morte, de certa forma, vale também para a morte das pessoas com as quais temos laços de amizade e de amor. Quando elas morrem já levam consigo, por assim dizer, uma parte de nós para a morada eterna. Tudo o que em vida dividimos com elas, em alegria e sofrimento, amor e dor, todas as conversas que tivemos, a proximidade que sentimos, tudo isso, na morte, elas levam consigo à morada que preparam para nós.

Hoje estarás comigo no Paraíso

         O evangelista Lucas, na descrição da morte de Jesus nos mostra uma outra imagem de alento para nossa morte através da passagem bíblica do Bom Ladrão (Lc 23, 40-43). O malfeitor da esquerda zombava e blasfemava contra Jesus. O malfeitor da Direita, por sua vez, repreendeu, com veemência ou outro criminoso: “Nem se quer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplicio? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram nosso crimes, mas este não fez mal algum”. (Lc 23, 40-41).

     
   Este último nada tinha a expressar, senão seu arrependimento, ou seja, sua confissão de que ele merecia sofrer a morte de cruz, seus atos foram dignos de tal sentença. Contudo, ele, com toda fé, se voltou para Jesus e acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino! E Jesus respondeu-lhe com belas palavras: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso. (Lc 23,43). 

     Nesta passagem, Lucas não pensa em um estado intermediário entre morte e ressurreição. Na morte, o homem é acolhido no paraíso, se ele busca seu refúgio junto a Jesus. O paraíso é, portanto, o espaço onde estamos em Cristo e com Cristo, por ele acolhidos e cercados do seu amor.

          A cena que Lucas nos relata é plena de esperança. Mesmo que só reconheçamos, no fim de nossa vida, que vivemos ignorando a verdadeira vida e fizemos muitas coisas erradas, podemos, com toda fé, olhar para Jesus, que morreu por nós. Olhar para Jesus nos dá a esperança de que, com Ele, entraremos no paraíso.

Nosso luto pode ser diferente

         Paulo escreve sobre o luto cristão na Primeira Epístola aos Tessalonicenses: “Irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para que não vos entristeçais, como os outros homens que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morreram”. (1Ts 4, 13s)
Através da representação daquilo que nos aguarda na morte, Paulo deseja transformar o luto dos Cristãos. 

   
   
         Ele não parte do pressuposto de que, como cristãos, não deveríamos sentir tristeza. Porém, nosso luto deve ser diferente do luto dos que não têm esperança. A esperança pelo que na morte nos está reservado influi diretamente em nossa forma de lidar, tanto com a própria morte quanto com a morte de pessoas próximas.

          A Bíblia e a tradição espiritual nos oferecem magníficas imagens dessa esperança, para que possamos fazer as pazes com a certeza da própria morte e viver, neste mundo, sem medo dela. Por isso é bom que conservemos tais imagens em nossa mente, para que elas nos libertem de imagens amedrontadoras que dormitam no fundo de nossa psique, e que, por meio de argumentos puramente racionais, não podem ser dissipadas nem sequer transformadas.

            Em Jesus Cristo, o próprio Deus nos deu a esperança. Por Deus, em Jesus Cristo, nos foi dada a graça de podermos viver com toda “sobriedade, justiça e piedade”, neste mundo, enquanto aguardamos a feliz consumação de nossa esperança “pela aparição gloriosa de nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo”. (Tt 2, 12s)

           Esta é a esperança feliz que nos foi dada por Deus, uma esperança que, hoje, já faz de nós pessoas felizes; uma esperança que em vista da morte, nos permite viver agora – e alegres por isso – em sintonia conosco mesmos e com a nossa vida.