Porque ficamos Desolados?
António Valério, sj
Um dos temas mais presentes, por vezes persistentes, na experiência dos Exercícios Espirituais, mas também na vida de oração mais comum é a desolação. E, se quisermos, poderemos ainda alargar a experiência da desolação aos sentimentos provocados pelos acontecimentos da vida, que nos apanham mais ou menos desprevenidos, e que fazem com que nos interroguemos: porque é que isto está a acontecer?
Na sua sabedoria, nascida da própria experiência de vida, Inácio apresenta, nas regras para o discernimento de espíritos para a primeira semana, uma série de causas da desolação. O que mais surpreende nestas causas é que Inácio desloca a raiz da desolação não tanto para o que acontece fora do sujeito, mas aponta precisamente para as disposições criadas para que o exterior cause internamente um estado desolado. Por outras palavras, poderia dar a entender que: se estás desolado, a culpa é tua!
Procuremos explicar melhor a partir do texto:
“Três são as causas principais por que nos achamos desolados: A primeira é por sermos tíbios, preguiçosos ou negligentes em nossos exercícios espirituais. […] A segunda, para nos mostrar de quanto somos capazes e até onde nos alargamos no seu serviço e louvor, sem tanto dispêndio de consolações e grandes graças. A terceira, para nos dar verdadeira informação e conhecimento, com que sintamos que não depende de nós obter ou conservar nenhuma […] consolação, mas que tudo é dom e graça de Deus nosso Senhor”. [EE, 322]
Ou seja, a desolação pode acontecer quando não pomos os meios para estar verdadeiramente sintonizados com o que é importante, quando não nos esforçamos. Não podemos ganhar a confiança de ninguém se não arriscarmos também confiar; seremos incapazes de perdoar se não estivermos abertos ao perdão dos outros, e tantas outras situações que bloqueiam, por preguiça ou medo, poder dar passos decisivos para as coisas que sabemos bem serem as melhores, mesmo que custe.
A desolação pode acontecer se desanimamos facilmente, se perdemos horizonte, se a dificuldade presente, grande ou pequena que seja, reduz a nossa vida àquele instante de angústia ou incompreensão. Perdemos a noção de que a vida é muito mais que aquilo que hoje nos acontece.
A desolação, por fim, pode acontecer quando nos apanhamos surpreendidos a cair do pedestal que construímos apenas fundado nas próprias certezas, lógicas e nas nossas seguranças. Quando não nos deixamos conduzir, quando não nos deixamos entregar e confiar. Quando não somos capazes de ser filhos amados infinitamente pelo Pai.
Certamente esta não é uma solução mágica para pôr fim à tristeza, porque essa continua a existir. É antes um caminho para continuar em direção à certeza de quem diz com a própria vida: “O Senhor é a minha luz e salvação, a quem temerei? O Senhor é o protetor da minha vida, de quem hei-de ter medo? [Sl 27].
